Se ignoramos a questão geográfica podemos, sem dúvida, pensar na existência duma Idade Média ultrapassando os contornos geográficos do ocidente europeu e chegando até América. Esse fator não é único , teremos também que ignorar a questão cronológica , haja visto que o fim dos tempos medievais está associado com transformações na Europa entre os século XIV e XVI. A chegada dos colonizadores no Novo Mundo ocorreu em fins dos anos mil e quatrocentos, portanto em uma época de mutabilidade, devido às transformações sociais , econômicas e políticas que fizeram parte chamada Idade Moderna

Diversos elementos típico dos tempos medievais e que permearam a mentalidade do homem europeu por quase 1000 anos, foram transportados para o Novo Mundo. A religiosidade católica, o culto à Virgem e o sistema escolástico que enquadraram o ensino nas Universidade criadas na América espanhola durante o século XVI , constituem essa matriz cultural inédita para os americanos. Na realidade europeia, tais costumes alimentavam uma tradição que existia há séculos( pelo menos a partir de 313 d.C) e estava indissociavelmente atrelada a estrutura de pensamento e compreensão do mundo dessas sociedades. Esse novo horizonte religioso , após ser introduzido e disseminado pelos colonizadores sob perspectiva teológica e doutrinária passava , aos poucos , a ser assimilada ao cotidiano das populações nativas. Embora sabemos que o ensino era desfrutado por uma minoria ligada à nobreza indígena, seja nos colégios ou ensino superior.

O sistema agrícola típico das sociedades europeias também cruzou oceano Atlântico e chegou ao Novo Mundo. As técnicas produtivas, a incorporação de novos gêneros alimentares trazidos pelos espanhóis e as relações açucareiras estabelecidas na América Portuguesa durante o século XVI concretizam essa ideia. Apesar de sabermos que existia uma mentalidade econômica e política nova na época moderna – que era diferente do pensamento medieval, a persistência de determinadas práticas perpetuaram-se para além mar. Sejam elas religiosas, teológicas ou econômicas.

Mas se considerarmos que as Grandes Navegações inauguraram uma nova era econômica e estava inserida em um cenário cultural e político que divergia dos tempos medievais, talvez a noção da existência duma possível Idade Média não seja aplicável a realidade do homem americano e do Novo Mundo. O novo continente estava inserido numa dinâmica comercial em âmbito internacional, e dialogava com outras regiões do globo terrestre. O sistema Mercantilista e Absolutista característico das sociedade do Antigo Regime, sustentavam as experiências internas às colônias e externas aos Impérios Ultramarinos. Essas relações duraram pelo menos 300 anos!

Se levarmos em consideração a perpetuação dos valores religiosos , teológicos, doutrinários e das novas técnicas introduzidas no continente americano podemos pensar na existência de práticas medievais no Novo Mundo. Mas a existência desse periodo histórico nas terras colonizadas talvez seja inconcebível, haja visto que em âmbito internacional o Mundo assistia profundas transformações, sejam no comportamento social dos nativos e sua percepção em relação ao homem branco, no âmbito da cultura humanista e nas novas relações econômicas. A primeira globalização ocorreu no século XVI, onde o Mundo conectava-se através de intercâmbios comerciais e culturais, o que fortalece a impossibilidade da existência de tempos medievais no Novo continente.

Referência: História Medieval, Marcelo Cândido da Silva