Existiu Idade Média no Novo Mundo?

Se ignoramos a questão geográfica podemos, sem dúvida, pensar na existência duma Idade Média ultrapassando os contornos geográficos do ocidente europeu e chegando até América. Esse fator não é único , teremos também que ignorar a questão cronológica , haja visto que o fim dos tempos medievais está associado com transformações na Europa entre os século XIV e XVI. A chegada dos colonizadores no Novo Mundo ocorreu em fins dos anos mil e quatrocentos, portanto em uma época de mutabilidade, devido às transformações sociais , econômicas e políticas que fizeram parte chamada Idade Moderna

Diversos elementos típico dos tempos medievais e que permearam a mentalidade do homem europeu por quase 1000 anos, foram transportados para o Novo Mundo. A religiosidade católica, o culto à Virgem e o sistema escolástico que enquadraram o ensino nas Universidade criadas na América espanhola durante o século XVI , constituem essa matriz cultural inédita para os americanos. Na realidade europeia, tais costumes alimentavam uma tradição que existia há séculos( pelo menos a partir de 313 d.C) e estava indissociavelmente atrelada a estrutura de pensamento e compreensão do mundo dessas sociedades. Esse novo horizonte religioso , após ser introduzido e disseminado pelos colonizadores sob perspectiva teológica e doutrinária passava , aos poucos , a ser assimilada ao cotidiano das populações nativas. Embora sabemos que o ensino era desfrutado por uma minoria ligada à nobreza indígena, seja nos colégios ou ensino superior.

O sistema agrícola típico das sociedades europeias também cruzou oceano Atlântico e chegou ao Novo Mundo. As técnicas produtivas, a incorporação de novos gêneros alimentares trazidos pelos espanhóis e as relações açucareiras estabelecidas na América Portuguesa durante o século XVI concretizam essa ideia. Apesar de sabermos que existia uma mentalidade econômica e política nova na época moderna – que era diferente do pensamento medieval, a persistência de determinadas práticas perpetuaram-se para além mar. Sejam elas religiosas, teológicas ou econômicas.

Mas se considerarmos que as Grandes Navegações inauguraram uma nova era econômica e estava inserida em um cenário cultural e político que divergia dos tempos medievais, talvez a noção da existência duma possível Idade Média não seja aplicável a realidade do homem americano e do Novo Mundo. O novo continente estava inserido numa dinâmica comercial em âmbito internacional, e dialogava com outras regiões do globo terrestre. O sistema Mercantilista e Absolutista característico das sociedade do Antigo Regime, sustentavam as experiências internas às colônias e externas aos Impérios Ultramarinos. Essas relações duraram pelo menos 300 anos!

Se levarmos em consideração a perpetuação dos valores religiosos , teológicos, doutrinários e das novas técnicas introduzidas no continente americano podemos pensar na existência de práticas medievais no Novo Mundo. Mas a existência desse periodo histórico nas terras colonizadas talvez seja inconcebível, haja visto que em âmbito internacional o Mundo assistia profundas transformações, sejam no comportamento social dos nativos e sua percepção em relação ao homem branco, no âmbito da cultura humanista e nas novas relações econômicas. A primeira globalização ocorreu no século XVI, onde o Mundo conectava-se através de intercâmbios comerciais e culturais, o que fortalece a impossibilidade da existência de tempos medievais no Novo continente.

Referência: História Medieval, Marcelo Cândido da Silva

Uma pequena análise da pintura a óleo, de José Garnelo y Alda: “Primeira homenagem a Colombo”(1892)

A pintura a óleo ilustrada acima, de 1892, pertence a José Garnelo, artista espanhol que viveu durante o século XIX. A obra mostra a chega de Cristóvão Colombo à América em 12 de outubro de 1492, portanto representa uma marco simbólico que completava 400 anos . Para irmos além dessas datações e refletirmos sobre o caráter histórico e semântico da obra, precisamos interpreta-la em sua totalidade pictórica e ir além do seu caráter “pacífico “.

Em primeiro lugar, devemos observar a ambientação e a paisagem presente na pintura. Percebemos que Garnelo foi cuidadoso em mostrar as características naturais das novas terras conquistadas pelos europeus. O azul , marrom claro e o verde representam a flora. Além disso , essas cores traduzem o exotismo existente no Novo Mundo. Entre os séculos XVI e XIX, diversos relatos de viagens descrevia a natureza do continente americano: ora deteriorando sua realidade, ora exaltando sua vitalidade. Sem dúvidas, todas essas tonalidades representadas pelo pintor evidenciam a chegada do homem branco em um novo continente, que até aquele momento não fazia parte do imaginário europeu sobre o mundo.

O presença do homem branco e das populações nativas na imagem, coexistindo numa mesma ambientação “pacifica”, traduz o contato entre culturas. Esse contato entre culturas trás reflexões sobre as mudanças comportamentais de ambos os grupos: no fluxo da colonização na América, os europeus incorporaram práticas de banho que, até então , não faziam parte de sua práticas habituais higiênicas; os nativos, por outro lado, passaram a enterrar os mortos( prática comum na realidade cristã, mas que não fazia parte dos rituais e costumes locais). Além dessas conexões culturais, o impacto das doenças trazidas pelos europeus do velho Mundo, como a varíola, sarampo ,etc, foi profundamente dramático para os indígenas. Estima-se que milhões de grupos autóctones que viviam nos Andes e na Mesoamérica foram dizimados e reduzidos, devido as epidemias disseminadas. Seria a expedição de Colombo, portanto, responsável pelo início dum quadro genocida das populações nativas ao longo das violentas guerras de conquista e ,também , por meio da introdução do incipiente imperialismo ecológico?

Em última análise, mas não menos importante, devemos observar a presença da cruz na imagem. Sem dúvidas, explicita os objetivos religiosos de Colombo durante sua viagem. Todos nós sabemos que havia na mentalidade europeia de época o desejo de propagar a fé católica para outras áreas, ultrapassando os contornos geográficos da Europa e chegando a outras regiões. Ao longo da colonização no século XVI , muitos nativos foram catequizados e assimilados a religião católica, num contexto em que a Europa cristã estava fragmentada: novas vertentes religiosas surgiram após o movimento reformista de Lutero.

Se apenas olharmos para pintura do artista espanhol sem fazer uma análise histórica, nos deixamos levar pelo romantismo e pacifismo que a obra exala. É como se esse contato entre culturas tivesse acontecido por vias harmônicas e sem utilização da violência generalizada. Assim, é necessário aprofundar nossas perspectivas e ir além daquilo que as IMAGENS podem significar. Neste caso, a saída para não sermos enganados por essa percepção ” pacífica” é voltarmos há 600 anos atrás e compreender a realidade dos fatos ocorridos e suas múltiplas interpretações.

Referências e sugestões de leitura:

  • História da Civilização ocidental
  • A conquista da América , a questão do outro
  • A história do Brasil para quem tem pressa

O romance”Drácula”, entre ficção e história: reflexos da mentalidade heterogênea no século XIX

A literatura tem o poder de moldar o pensamento crítico e reflexivo das pessoas. Além de alavancar a imaginação, funciona como um retrato mimético dos nosso costumes. Neste sentido, os valores e comportamentos duma sociedade podem ser recuperados e transformados em ficção ou fantasia. O contexto histórico também é basilar para compreendermos os diversos clássicos literários, que utilizam de gêneros diversos para apresentar ao mundo metáforas, pensamentos, mentalidades e histórias da sociedade. A partir disso, podemos ter visões e percepções mais amplas sobre um determinado período , como é o caso das obras escritas no século XIX. As obras produzida nos anos oitocentos, como é o caso de Drácula possibilita, por exemplo, pensarmos nas mentalidades que conviviam naquele século.

O romance de Stoke,B ilustra bem essas questões. Publicado originalmente na última década do século XIX, o clássico revela uma ambientação histórica onde conviviam múltiplas mentalidades. Essas mentalidades eram heteregoneas e tinham formas distintas de enxergar o mundo, seja através duma via científica, religiosa ou mítica.

Através de inúmeras cartas que são trocadas entre os personagens e pelas descrições narradas em seus diários, percebemos que convivem na ficção, paralelamente, crédulos sem fudamento científico. A própria crença no sobrenatural, neste caso, no vampirismo, é algo para se pensar. A sociedade ocidental vive numa tradição. Diversas crenças difundidas em outras épocas persistem na contemporaneidade.

A partir do século XVII, a racionalidade de Descartes vai ganhando espaço na percepção e entendimento do homem sobre o mundo tal como o cientificismo de Darwin nos anos oitocentos. Desse modo, reformulou-se profundamente o pensamento de muitos indivíduos rumo a descrença nesses ideias míticos, que passaram a ser alimentados por estruturas puramente racionais. Neste sentido, acreditar em lobisobens , bruxas ou vampiros no seculo XXI, por exemplo, tornou-se motivo para sociedade estabelecer adjetivos carregados de definições ” insanas ” , pois uma pessoa dotada de razão seria incapaz de acreditar que essas ” criações da cultura popular” desprovidas de fundamentos empíricos e racionais pudessem existir. Contudo, ainda há aquele que convivem carregados de incertezas e pensamentos binários.

Van Helsing é uma representação dessas incertezas e dicotomias que permeiam o pensamento humano. A prova factual que os seres humanos podem carregar consigo pensamentos alternos. Doutor, professor e médico, atua no exame de Lucy , personagem que adoece ao longo da ficção e, por conta disso, necessita de atendimentos clínicos para diagnosticar sua situação. Um dos procedimentos que Helsing faz é a realização duma transfusão sanguínea, dando a obra tons absolutamente científicos e biológicos. Ao perceber marcas de mordida ao redor do pescoço da paciente, Helsing chega a pensar na possibilidade de algo que, em suas convicções racionais, seria impossível de acontecer ou existir.

Não convencido dessa dúvida e inquieto pelo o que observou , parte em busca de respostas. Dias depois, entrega a paciente flores com perfume de alho. Todos nós sabemos que o alho aparece em muitas lendas associada ao combate às forças do mal, neste caso contra os vampiros. As lendas antiga contam que o alho era utilizado para disfarçar o mal cheiro dos mortos, devido a capacidade desse alimento exalar um intenso perfume. Contra os vampiros, funcionava evitando impedir que os mortos retornacem aos seus corpos e, impossibilitado essa passagem, não se transformavam em vampiro. Era como se depois da morte, a alma tentesse voltar ao corpo para retornar a vida não humana dominada pelo sobrenatural e anunciar a imortalidade, mas com utilização do alho ,essa tentativa não era possível de suceder. Cabe a nós questionarmos: será que Van Helsing, ao entregar as flores com perfume suspeito, já acreditava na existência de vampiros? Talvez já acreditasse ou estava começando assimilar a realidade dos fatos a algo que não era humano ou comum ! Dessa maneira, o personagem transporta para realidade a possibilidade dum homem científico deixar -se seduzir pelas crenças sem comprovações racionais, nas ambientados históricas do século XIX

Sabemos que o século XIX é marcado por uma nova ordem política que foi inaugurada a partir do pensamento iluminista e da Revolução Francesa. A Igreja não possuía mais a força que outrora logrou estabelecer em outros séculos. Seus fiéis e fanáticos religiosos coexistiam as formas de pensar mesclando múltiplas crenças, sejam elas mitológicas , cristãs ou cientificismo. Todas essas formas de pensamento vivendo no mesmo século! O século XIX! A obra de Stoker ilustra explicitamente essa questão, sobretudo nos momentos difíceis que os personagens vivem. É comum ao longo da narrativa escutarmos frases do tipo” que Deus nos ajude” e outras menções que são feitas como pedido de socorro ao plano divino. Parelamente a isso, os acontecimentos sobrenaturais, as relações científicas entre professor(Helsing) e seu aluno enfermeiro, que visavam examinar a condição de Lucy e sua saúde física, guiam o leitor para refletir sobre perspectivas diferentes desses personagens e os vários campos do pensar que constituem a obra.

Nos dias atuais, uma sociedade é capaz de conviver com variadas formas de crença,embora muitas das vezes essa convivência não seja pacífica e tolerante. Apesar disso, são essas múltiplas formas de compreender o mundo que caracterizam uma sociedade heterogênea do ponto de vista das mentalidades que podem coexistir num mesmo espaço. Sem dúvidas, essas mentalidade corroboram para enxergarmos diferentes pontos de vista. No que se refere à crença em vampiros nos dias atuais, a dicotomia consiste na relação antagônica entre “não acreditar” e “fascínio” . Esse fascínio , sem dúvidas, alimentado pela curiosidade de diversas pessoas, como eu, por essas histórias e lendas. Os filmes, séries e literatura , que constituem produções sobre esse universo sobrenatural , alimentam o imaginário da sociedade para despertar paixão pela prosa vampiresca. ” The Vampire diaries ” e ” Entrevista com Vampiro” tal como o “Drácula” exemplificam esse prosaico simbólico, que está profundamente associado à cultura popular. Portanto, acreditar em vampiros e compreender a literatura de Bram Stoker, abrem portas para refletirmos sobre questões históricas e atentarmos nossos olhares para os costumes e hábitos que circundam nosso cotidiano , sejam eles no plano cinematográfico, literário ou das mentalidades particulares de cada indivíduo.

Revolução comercial: 1400 -1700

Advento da chamada Era Moderna

A Revolução comercial marca o início de uma nova era para Europa ocidental. Início de novos tempos, caracterizado por transformações sociais e econômicas profundas. São diversas alterações no cenário europeu: declínio da sociedade feudal, a importância do lucro que antes era deixado de lado e agora, passa a ser alimentado pela política mercantilista, o nascimento duma nova cultura afirmada pelo Renascimento Cultural- esse foi essencial para romper com as bases religiosas – apesar de não ignora-las; não houve ênfase na filosofia escolástica e sua associação entre fé e razão, ignorou , ainda , a arquitetura gótica medieval. Além disso, ocorre advento dos Estados Mosernos e a supremacia monárquica. É nesse palco de modificações que Europa começa a se dinamizar para os novos tempos. paralelamente a esse contexto que ocorre a Revolução Comercial.

As característica desse Revolução Comercial

As grandes navegações levaram à descoberta de novas terras, ou seja, de um outro continente desconhecido: o Novo Mundo. A partir desse momento o mundo está conectado em três pedaços longínquos: África , América e Europa. De imediato, a intensificação do comércio de matérias primas e metais preciosos começam a ganhar força. O lado obscuro dessa faceta histórica está na dinâmica escravista que atingiu proporções globais ( grande contingente de negros africanos deslocavam-se , forçadamente, para América Portuguesa). Portanto, duas das grandes características dessa revolução é processo de europeização e comércio escravista à nível intercontinental.

As consequências para América Colonial – espanhola e portuguesa

Como foi dito anteriormente, as grandes navegações fizeram parte desse contexto e alimentou tal processo. A chegada dos colonizadores na América – espanhola e portuguesa, no século XVI, trouxe muitas consequências para aquela sociedade: escravidão indígena , com ênfase, em termos quantitativos, nas colônias espanholas em que esses índios se submetiam ao trabalho nas Minas de Potosí ; disseminação da fé católica pelo continente ibéricos ;conversão das populações indígenas e a submissão dos povos nativos à cultura ocidental – algumas populações indígenas passaram andar vestida ; dizimação das populações indígenas nos Andes e na Mesoamerica por conta da introdução de doenças trazidas pelos colonizadores. Além de tudo isso, os europeus exploraram recursos naturais , como foi o caso do Pau-Brasil.

As causas dessa Revolução podem ser identificadas em múltiplos aspectos. Podemos citar o desenvolvimento do comércio lucrativo, a concessão do monopólio Mediterrâneo as cidades estados italianas – esse fator é considerada um produto das Cruzadas , que teve o primeiro movimento em direção à Terra Santa em 1096. Além disso, introdução do ducado veneziano , portanto a introdução da moeda nesse novo cenário; também, acúmulo de capital excedente. É claro, as grandes navegações intensificaram esse processo.

Reflexos dessa revolução comercial na Europa

Na minha própria perspectiva sobre esse tema, a Revolução Comercial possui uma profunda contradição, no sentido dos efeitos gerados pelo contato entre os continentes. Relativamente à América, que trouxe, falando de modo bem generalizado, uma dominação das populações nativas; pelos dois impérios Ibéricos – Portugal e Espanha , ocorreu um fortalecimento econômico. Houve uma intensa diversificação comercial dos produtos desembarcados na Europa: cacau e chocolate da América do Sul, açúcar da América portuguesa, melaço e rum das Antilhas. Logo , houve uma ampliação no comércio e no consumo de produtos agrícolas. Além disso, era um fascínio extremo dos Estados Modernos a necessidade de obter metais precioso. Esse produtos valiosos inundaram a monarquia espanhola no século XVI devido à extração das minas de Potosí , no alto Peru. O ouro e prata ali reunidos eram acumulados para investimentos futuro, uma característica típico do sistema capitalista que estava em desenvolvimento. Era necessário , diante dessa perspectiva, enriquecer e acumular riquezas.Vale ressaltar ainda as alterações de dominância provocada. Antes, apenas as cidades de Veneza , Gênova e Pisa tinham influência no comércio mediterrânico, com avançar do séculos, perdeu espaço para os portos portugueses, onde os navios atracavam com produtos diversos. Ampliou a dinâmica comercial em proporções geográficas , não se limitando ao Mediterrâneo – exploravam agora “os sete mares” e as aventuras do oceano atlântico nunca dantes navegado.

Consequências econômicas, agrícolas e sociais

Como mencionado anteriormente, as características do processo acumulativo de riqueza pelos estados modernos, que dentre outros objetivos, tinha o de investir as riquezas acumuladas, corroborou para afirmação duma política capitalista. Essa política sempre visou o lucro. E era isso que acontecia nas sociedades europeias através dos princípios mercantilistas. Era um capitalismo comercial que caracterizava esse período. Logo, ocorreu desenvolvimento desse sistema. Com o acúmulo de produtos trazidos dos outros continentes para Europa e também produtos para exportação, abriu espaço para processo da manufaturação, o que facilitou essa disseminação comercial; além disso, os produtos de luxo e matérias primas chegavam até Europa e para chegar até consumidor, precisavam ser manufaturadas; logo, esse fator culminou no desenvolvimento de fábricas,que posteriormente levou a “primeira” Revolução Industrial ocorrida na Inglaterra do século XVIII.

Na agricultura, ocorreu o melhoramento do cultivo de determinadas culturas associado ao aperfeiçoamento mecânico. Neste sentido, um início duma agricultura considerada moderna. Os equipamentos mecânicos aumentaram a produtividade dos gêneros; como arado de metal e semeadora para colher grão que antes era realizada a mão , foram algumas das novas técnicas introduzidas. ” Por significativo que fossem esses melhoramentos, a verdadeira mecanização da agricultura só se deu, no entanto, já em pleno século XIX” (EDWARD MCNALL). Além disso, entre os séculos XVII e XVIII a agricultura foi incorporada ao sistema capitalista , diante do aumento da população , crescimento das cidades e aumento dos preços, tornando esse processo um “mar de negócio”.

O aumento populacional também foi resultado dessa Revolução Comercial. Para explicar esse fatore, é preciso levar em consideração as transformações provocada pela agricultura. A partir dessas modificações no campo, a população passou, entre outras termos, a se “alimentar bem”.

Se observarmos o gráfico abaixo, é possível ter uma noção das transformações demográficas que as sociedades europeias passaram em 500 anos. O declínio entre os anos 1350 e 1450 explica-se pela peste negra, que dizimou milhões de homens. Em uma análise de dados : “Londres contava com mais ou menos 46.000 almas em 1378; em 1605, a cifra eleva-se a aproximadamente 225.000 ( J.W. Thompson, Economic and Social History of Europe in the Later Middle). Essa Revolução, ofereceu a possibilidades de inúmeros homens fazerem fortuna, logo melhorem suas condições de vida.

Observe o mapa que ilustra o declínio

A questão que nos interessa, se tratando da Revolução Comercial (1400-1700) , é perceber um considerável aumento a partir da segunda metade do século XV; que logo depois atinge números mais expressivos nos outros séculos.

Para finalizarmos essa linha de pensamento construída, um fator também deve ser levado em consideração para esse aumento populacional na Europa , que se deu através dos tempos renascentistas no século XVI: a fluidez entre as classes. Paralelamente ao “boom comercial”, ocorreu o Renascimento Cultural. Esse movimento foi essencial para defender, mesmo que de modo não explícito, a igualdade entre as classes. Prova disso é que muitos dos artistas desse período vinham de famílias simples , como é caso de Shakespeare. Também, de famílias bastardas, como é o caso de Leonardo Da Vinci. Logo, não era um movimento artístico que enfatizava ou atribuia importância para questões de classe social , “berço de ouro” ou linhagem. Além disso, as profissões liberais tiveram igual importância nesse período, advogados, professores, pintores e médicos assumiram a mesma importância. Portanto, abriu espaço para um mundo de possibilidades em que todos poderiam tirar proveito das transformações econômicas ocorrida neste período.

Referência bibliográfica: Edward McNall , História da Civilização Ocidental

Renascimento cultural: rupturas e novidades

A transição da época feudal para renascença

Uma série de transformações marcaram a Europa durante a transição da Idade Média para época moderna. A cavalaria, a arte gótica, o feudalismo e autoridade papal haviam declinado e enfraquecido. A Filosofia escolástica também não entrava mais como protagonista nos campos do saber, que abrirá espaço para uma cultura humanista e cientificista em voga. Durante essas transformações, devemos salientar uma das grandes mudanças: a transcrição de um pensamento teocêntrico( Deus no centro) para o antropocentrismo( homem no centro das coisas). Dessa forma, a religião foi perdendo força ao longo dos séculos que sucederam a renascença.

Mais que um reflorescimento da cultura pagã

O renascimento cultural foi além do florescimento da cultura pagã. Muitas inovações ocorreram no campo da Literatura, das Artes , Filosofia e Ciência. Muitos dessas novidades eram baseadas na cultura clássica greco- romana, que foi incorporada e resgatada nessa nova ambientação moderna. Além disso, incorporou princípios “ineditos” à sua época que marcaram o mundo moderno. Podemos citar alguns exemplos, como o hedonismo, o naturalismo , individualismo, humanismo e cientificismo. São muitos os “ismos” que caracteriza os tempos modernos. Sem dúvidas, foram eles os responsáveis por definir as particularidades principais desse período.

As causas da Renascença e pioneirismo italiano

As causas do movimento artístico cultural das artes é resultado de inúmeras transformações que ocorreram a partir do século XII, ou seja, desenvolvimento comercial, renovação dos interesses dos estudos clássicos nos mosteiros e catedrais e influência da cultura bizantina foram algumas das novidades anunciadas. O movimento das traduções também esteve dentro dessas novidades: primeiro do grego para árabe e do árabe para latim. “A importância cultural do movimento das traduções é considerável: acompanhou e estimulou o crescimento intelectual da Europa nos séculos XII e XIII; fundou em larga medida a modernidade do pensamento, contribuindo para provocar na Europa um desenvolvimento cultural verdadeiramente revolucionário. (LE GOFF, 2002, p.642)

Alem dessa série de fatores, dois merecem atenção para suposta causa do renascimento: as cruzadas e a imprensa. O primeiro evento , introduziu através do movimento das traduções, a cultura muçulmana no ocidente. Além de enfraquecer o papado, colaborou para conceder o monopólio as cidades estados italianas. Também surgiram novas rotas comerciais pelas quais passaram a circular mercadorias. Já a imprensa, colaborou para difundir as ideias renascentistas e fortaleceu a mentalidade de atores sociais que fizeram essa cultura. Uma coisa que vale ressaltar e que no início da atividade impressa, houve limitações. Não era todo tipo de assunto que circulava – de início, predominava os textos teológicos e lendas clássicas , as obras antigas e histórias populares eram mais atrativas para as editoras que surgiam no século XV. Essa opção editorial se dava por conta desses assuntos serem mais lidos, logo haveria mais lucro , ou seja, a nova cultura não atingirá espaço significante – número de leitores e adeptos. Essa nova invenção era vista como “engenhoca barbara” pelos humanistas.

O pioneirismo italiano se deve a alguns fatores, entre eles podemos destacar os econômicos e sociais. As cidades estados italianos possuíam monopólio do comércio Mediterrâneo – Gênova , Pisa e Veneza. As cidades eram permeadas por mercadores que atuavam como ponte entre comércio europeu – partes do Sul e Norte. Além disso, houve resgate da cultura clássica greco-romana. O cenário de Florença no século XV nos dá um panorama sobre as condições italianas da época. A economia era uma junção de artes, tecnologia e comércio. Haviam diversas profissões que se destacavam como pintores, joalheiros e marceneiros que trabalhavam na cidade. A população era alfabetizada – cerca de um terço , sendo essa a taxa mais alta em toda Europa. O ensaísta Benedetto Dei , escreve em 1472 sobre as características da cidade, e afirma que possui “os sete requisitos fundamentais para atingir a perfeição”: cidade dotada de liberdade ; as pessoas circulam pelas ruas impelidas de elegâncias e boas vestimentas; possuiu rios e águas limpas; possui universidades que ensinam grego e contabilidade – Bolonha tinha forte influência no Direito e pouca atuação da área escolástica/ teológica. Além disso , possuía professores ou mestres de todas as artes; dispõe de bancos e homens ligados às atividades comerciais espalhados por regiões além da Europa.

Leonardo Da Vinci: gênio inventor

Leonardo Da Vinci nasceu em 1452 em um vilarejo. Veio de família pobre; filho bastardo nascido fora do casamento – naquele período possuía uma ambiguidade – pertencia e ao mesmo tempo não estava totalmente inserido como membro duma determinada família ; não teve uma educação escolar formal completa , frequentou duas escolas – “escolas de latim” , muito comum aos candidatos aspirantes do comércio e humanidades nos primeiros anos da renascença , lá empreendiam clássicos. A outra escola foi a “escola de ábaco – que sublinhou saberes matemáticos “. Leonardo Da Vinci foi autodidata, grande parte de seus conhecimentos vieram de sua imensa curiosidade pela natureza e os fenômenos aos seu redor. Uma observação: seu sobrenome deriva do local em que viveu na infância. Era comum no século XIV as famílias colocarem sobrenomes advindos de cidades.

Durante muito tempo Leonardo foi aluno de outros pintores experientes em Florença – Verrocchio. No ateliê, aprendia e auxiliava. Incorporou técnicas e saberes geométricos. Vale salientar aqui que as vivências de Leonardo foram essenciais para ele introduzi-las em suas experiências artísticas futuras. Viveu em um cenário de festas e espetáculos, onde pode combinar elementos artísticos com engenharia. Conforme Walter Isaacson,os cenários e panos de fundo tinham que se integrar aos elementos tridimensionais de palco, incluindo a cenografia, os objetos estáticos e móveis e os atores (2017). Através dessas experiências, podemos ver nas obras de Leonardo a influencia desses espetáculos – nas pinturas e engenharia.

Leonardo viveu em um período concomitante ao desenvolvimento da prensa móvel e desenvolvimento da atividade livresca. Esta por sua vez, beneficiou sua atuação como inventor múltiplo. A imprensa de Gutenberg revolucionou as ralações humanas. Naquele período, as cidades italianas fundavam editoras – Johannes de Spira abriu um mercado editorial em Veneza no ano de 1469; grandes clássicos foram impressos como História Natural , Plinio ,no qual Leonardo comprou ( Isaacson, 2017. P 197). Veneza se tornou centro das atividades editoriais e contribuiu para muitas cópias e difusão do conhecimento. Nestes exemplos, percebemos que Leonardo foi veemente um autodidata, e buscou nos livros de gramática de Latim e volumes de aritmética seu conhecimento. Mesmo não sendo fluente em grego ou latim, sua curiosidade venceu limites e promoveu grandiosos feitos.

Renascimento fora da Itália

A influência da cultura renascentista não foi homogênea em toda Europa. Devido à realidade histórica de cada país, não é possível conceber esse movimento como igualmente profundo e forte em todas as sociedade; pois as condições econômicas e religiosas em algumas regiões limitavam atuação dessa nova cultura. Na Alemanha havia fortes raízes medievais- uma mentalidade religiosa vital. A Reforma Protestante espalhou ódio e intolerância – ideias contrários ao espírito humanista. Qualquer exaltação da antiguidade ou culto ao ser humano – antropocentrismo, era considerado “obra do demônio”. Conforme BURNS, a renascença alemã esteve limitada a pintura e gravura. Apesar de todo esses obstáculos, muitos estudantes migraram da Alemanha para Itália – esse acontecimento foi favorecido pela proximidade geográfica. Através desse exemplo , podemos entender como as ideias renascentistas foram sendo difundidas pelas regiões da Europa Moderna. Na Espanha, as justificativas do atraso podem ser atribuídas a dois fatores: forte influência da igreja e presença espanhola no Novo Mundo – os habitantes estavam focados nas ambições terrenos distanciaram sua atenção para pintura e as artes.

Declínio do movimento cultural renascentista

O declínio do movimento renascentista na Itália está relacionado a fatores econômicos, religiosos e políticos. O século XVI foi período em que os colonizados chegavam à América. Desse modo, o âmago das questões comerciais desviaram sua efervescência para oceano atlântico – onde eram feitas viagens e circulavam riquezas. A partir desse momento, as cidades-estados italiana enfraqueceram sua até então hegemonia comercial. Havia também na Itália , conflitos nas cidades estados por conta da questão envolvendo a incapacidade dos dos filhos de déspotas para lidar com governo, o que gerou uma instabilidade política. Ainda convém destacar outro fator: a Reforma católica. Fora da Itália, o enfraquecimento se deu a partir de fatores como a rarefação do pensamento humanista e ascensão da arte barroca.

Referência: McNall , História da Civilização Ocidental, 1968. Editora: Porto Alegre.

Formação de Leitores no Brasil e Argentina: uma perspetiva comparada

Olá, caros estudantes e curiosos! Como estão vocês ? O post de hoje trás reflexões sobre a formação de leitores no início do século XX no Brasil e Argentina.

A modernidade entra em cena

É no início do século XX que a literatura infantil ganha espaço nos mercados editoriais e passa a ser alvo de produção e interpretação para as crianças. Por trás dessa ação, agentes na Argentina e também no Brasil – sobretudo a partir de 1930, começam a discutir e desenvolver políticas públicas para formação de futuros cidadãos. Esse projeto ia de encontro ao cenário de ambas as repúblicas. Era uma época em que a ideia de “modernidade” ganhava espaço nessas regiões. E dentro dessa modernidade, incluía-se a difusão das práticas de leitura e escrita ; como também a difusão de bibliotecas públicas e espaços de sociabilidade.

Mediadores Culturais

Entende-se por “mediadores culturais” os agentes que atuaram como uma ponte entre as crianças e o mundo das letras. Fazendo com que houvesse através desse caminho um diálogo e incorporação das atividades letradas pelas crianças em alfabetização ou já alfabetizadas. Estes personagens entrelaçaram as políticas públicas com os mercados livrescos. Faziam parte desses grupo bibliotecários, professores, escritores, etc. Conforme Gabriela Pellegrino Soares em seus livro sobre a formação de leitores no Brasil e Argentina:

Escritores e mediadores comprometidos com propósitos de modernização, controle social, formação de cidadãos, participaram de projetos de iniciativa pública ou privada, fazendo veicular críticas, sugestões ou demandas, elaborando livros para crianças, cursos, conferências ou artigos sobre o tema.

Nesse trecho acima, percebemos o importante papel desses mediadores no processo de difusão das letras. Importante destacar aqui que esse ar de modernidade e projetos para formação de leitores começou a ser discutido na Argentina na segunda metade do século XIX – quando os projetos liberais nasciam. No Brasil, foi somente com advento da república na transição dos anos novecentos para século XX.

Leitura e escrita como instrumento de transformação social

Como foi dito anteriormente, as atividades letradas faziam parte de um ideal centrado na modernização e formação de cidadãos. Neste sentido, as raízes dessa atividade acompanharam paralelamente às transformação em curso nos dois países citados. Ao passo também que foi responsável por inserir princípios para com a formação de cidadãos: modernidade, racionalidade e civilização eram termos que dialogavam com a difusão das práticas de leitura e escrita.

A literatura também pode ser motivo para tornar o indivíduo mais humanizado. Transformando, portanto, seu espírito racional. Conforme Antônio Cândido:

(…) as camadas profundas de nossa personalidade pode sofrer um bombardeio poderoso das obras que lemos e que atuam de maneira que não podemos avaliar. Talvez os contos populares, as historietas ilustradas(…) atuem tanto quando a escola e a família na formação de uma criança e de um adolescente.

Neste trecho, ressaltemos as atividades de leitura como um complemento as outras instituições – familiares e pedagógicas, exercendo um papel igualmente importante. Tal debate será recorrente nas discussões sobre o mundo das letras durante esse período. As modificações no âmbito das letras abarcaram também as escolas, como resumiu Maria do Rosário Mortatti sobre ideal republicano de universalização da escola:

Do ponto de vista da concepção social, que indica passagem do sentido religioso ao moderno e da alfabetização restrita à alfabetização das massas,leitura escrita se apresentam como momento de mudança, como indicativo e anúncio de outro ritual de passagem para um novo mundo – para Estado e para cidadão: um mundo público da cultura letrada, que instaura novas formas de relação dos sujeitos entre si.

As ideias apresentadas destacam o “público e as “massas”. Dessa forma, nos coloca a pensar sobre os princípios da educação iluminista- uma educação gratuita e laica , mediada pelo Estado e não mais pela Igreja.

A finalidade da leitura e desafios

Muito se discutiu sobre a finalidade da leitura para as crianças em formação. Alguns olhavam para a leitura como instrumento de formação de leitores. Outros pensadores vinham para além desse aspecto: formação pedagógica, moral e cultural. Para estes pensadores, a literatura não era somente um mero exercício para formar leitores; ia além desse campo. Seguindo essas reflexões, Cândido ressalta:

(…) a literatura tem uma função formativa do tipo educacional ? (…) Seja como for, a função educativa é muito mais complexa do que se pressupõe um ponto de vista estritamente pedagógico.

Essas reflexões acompanham as ideias para implementação de bibliotecas públicas na Argentina no início do século XX. Esse século é um momento em que a criança começa a ser enxergada dentro da sociedade argentina e brasileira – ganham ” visibilidade “. Concomitantemente a essa imagem infantil que conquista espaço, os desafios de leitura, sobretudo no Brasil, eram profundos. O país apresentava até a primeira metade do século XX mais da metade da população composta por analfabetos. Além disso, outros problema envolvendo a disseminação de bibliotecas agravavam essa questão.

A análise de Robert Darnton em Os best-sellers proibidos na França pré- revolucionária nos trás uma ideia sob essa questão letrada:

(…) O problema não é o acesso aos Best – Sellers proibidos(…) Tampouco consiste numa questão de legibilidade(…) A dificuldade está na leitura em si.

Conclusão

Durante o período que engloba a transição do século XIX para o XX e o curso deste último século , inúmeras transformações políticas, culturais e sociais ocorrera em ambos os países. Os obstáculos enfrentados durante esse ínterim tiveram intensidades diferentes conforme a região. No caso do Brasil os problemas foram mais gritantes. As tentativas de formar cidadão letrados e alfabetizados ainda enfrentam desafios na ótica brasileira por fatores sociais e econômicos intrínsecos a nossa história. Que reflete, também, em questões escolares e na quantidade de leitores, que na atualidade brasileira caracteriza-se precária.

Referência bibliográfica: Semear Horizontes: Uma história da formação de leitores na Argentina e no Brasil , 1915 – 1954