A literatura tem o poder de moldar o pensamento crítico e reflexivo das pessoas. Além de alavancar a imaginação, funciona como um retrato mimético dos nosso costumes. Neste sentido, os valores e comportamentos duma sociedade podem ser recuperados e transformados em ficção ou fantasia. O contexto histórico também é basilar para compreendermos os diversos clássicos literários, que utilizam de gêneros diversos para apresentar ao mundo metáforas, pensamentos, mentalidades e histórias da sociedade. A partir disso, podemos ter visões e percepções mais amplas sobre um determinado período , como é o caso das obras escritas no século XIX. As obras produzida nos anos oitocentos, como é o caso de Drácula possibilita, por exemplo, pensarmos nas mentalidades que conviviam naquele século.

O romance de Stoke,B ilustra bem essas questões. Publicado originalmente na última década do século XIX, o clássico revela uma ambientação histórica onde conviviam múltiplas mentalidades. Essas mentalidades eram heteregoneas e tinham formas distintas de enxergar o mundo, seja através duma via científica, religiosa ou mítica.

Através de inúmeras cartas que são trocadas entre os personagens e pelas descrições narradas em seus diários, percebemos que convivem na ficção, paralelamente, crédulos sem fudamento científico. A própria crença no sobrenatural, neste caso, no vampirismo, é algo para se pensar. A sociedade ocidental vive numa tradição. Diversas crenças difundidas em outras épocas persistem na contemporaneidade.

A partir do século XVII, a racionalidade de Descartes vai ganhando espaço na percepção e entendimento do homem sobre o mundo tal como o cientificismo de Darwin nos anos oitocentos. Desse modo, reformulou-se profundamente o pensamento de muitos indivíduos rumo a descrença nesses ideias míticos, que passaram a ser alimentados por estruturas puramente racionais. Neste sentido, acreditar em lobisobens , bruxas ou vampiros no seculo XXI, por exemplo, tornou-se motivo para sociedade estabelecer adjetivos carregados de definições ” insanas ” , pois uma pessoa dotada de razão seria incapaz de acreditar que essas ” criações da cultura popular” desprovidas de fundamentos empíricos e racionais pudessem existir. Contudo, ainda há aquele que convivem carregados de incertezas e pensamentos binários.

Van Helsing é uma representação dessas incertezas e dicotomias que permeiam o pensamento humano. A prova factual que os seres humanos podem carregar consigo pensamentos alternos. Doutor, professor e médico, atua no exame de Lucy , personagem que adoece ao longo da ficção e, por conta disso, necessita de atendimentos clínicos para diagnosticar sua situação. Um dos procedimentos que Helsing faz é a realização duma transfusão sanguínea, dando a obra tons absolutamente científicos e biológicos. Ao perceber marcas de mordida ao redor do pescoço da paciente, Helsing chega a pensar na possibilidade de algo que, em suas convicções racionais, seria impossível de acontecer ou existir.

Não convencido dessa dúvida e inquieto pelo o que observou , parte em busca de respostas. Dias depois, entrega a paciente flores com perfume de alho. Todos nós sabemos que o alho aparece em muitas lendas associada ao combate às forças do mal, neste caso contra os vampiros. As lendas antiga contam que o alho era utilizado para disfarçar o mal cheiro dos mortos, devido a capacidade desse alimento exalar um intenso perfume. Contra os vampiros, funcionava evitando impedir que os mortos retornacem aos seus corpos e, impossibilitado essa passagem, não se transformavam em vampiro. Era como se depois da morte, a alma tentesse voltar ao corpo para retornar a vida não humana dominada pelo sobrenatural e anunciar a imortalidade, mas com utilização do alho ,essa tentativa não era possível de suceder. Cabe a nós questionarmos: será que Van Helsing, ao entregar as flores com perfume suspeito, já acreditava na existência de vampiros? Talvez já acreditasse ou estava começando assimilar a realidade dos fatos a algo que não era humano ou comum ! Dessa maneira, o personagem transporta para realidade a possibilidade dum homem científico deixar -se seduzir pelas crenças sem comprovações racionais, nas ambientados históricas do século XIX

Sabemos que o século XIX é marcado por uma nova ordem política que foi inaugurada a partir do pensamento iluminista e da Revolução Francesa. A Igreja não possuía mais a força que outrora logrou estabelecer em outros séculos. Seus fiéis e fanáticos religiosos coexistiam as formas de pensar mesclando múltiplas crenças, sejam elas mitológicas , cristãs ou cientificismo. Todas essas formas de pensamento vivendo no mesmo século! O século XIX! A obra de Stoker ilustra explicitamente essa questão, sobretudo nos momentos difíceis que os personagens vivem. É comum ao longo da narrativa escutarmos frases do tipo” que Deus nos ajude” e outras menções que são feitas como pedido de socorro ao plano divino. Parelamente a isso, os acontecimentos sobrenaturais, as relações científicas entre professor(Helsing) e seu aluno enfermeiro, que visavam examinar a condição de Lucy e sua saúde física, guiam o leitor para refletir sobre perspectivas diferentes desses personagens e os vários campos do pensar que constituem a obra.

Nos dias atuais, uma sociedade é capaz de conviver com variadas formas de crença,embora muitas das vezes essa convivência não seja pacífica e tolerante. Apesar disso, são essas múltiplas formas de compreender o mundo que caracterizam uma sociedade heterogênea do ponto de vista das mentalidades que podem coexistir num mesmo espaço. Sem dúvidas, essas mentalidade corroboram para enxergarmos diferentes pontos de vista. No que se refere à crença em vampiros nos dias atuais, a dicotomia consiste na relação antagônica entre “não acreditar” e “fascínio” . Esse fascínio , sem dúvidas, alimentado pela curiosidade de diversas pessoas, como eu, por essas histórias e lendas. Os filmes, séries e literatura , que constituem produções sobre esse universo sobrenatural , alimentam o imaginário da sociedade para despertar paixão pela prosa vampiresca. ” The Vampire diaries ” e ” Entrevista com Vampiro” tal como o “Drácula” exemplificam esse prosaico simbólico, que está profundamente associado à cultura popular. Portanto, acreditar em vampiros e compreender a literatura de Bram Stoker, abrem portas para refletirmos sobre questões históricas e atentarmos nossos olhares para os costumes e hábitos que circundam nosso cotidiano , sejam eles no plano cinematográfico, literário ou da mentalidade particular de cada indivíduo.